segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Agora quem fará do mundo uma grande estepe?


Morre o Imperador Oceânico
Em 1226, durante a campanha contra o remanescente do reino dos tangout, último enclave independente nos vastos domínios mongóis, Gengis Khan adoece. Sentindo próximo o fim, chama seus generais e lhes mostra o plano completo da conquista da China. Ordena aos filhos que vivam em paz entre si. Aos soldados dá uma última ordem: “exterminem a população tangout sobre minha tumba”. Morre no dia seguinte recomendando: “guardai a lei”.

Em vez de seu corpo ser levado à capital – diz a lenda que o carro do féretro recusou‑se a tomar essa direção, mas virou‑se para nordeste – foi conduzido às suas estepes natais, em local indeterminado junto às montanhas sagradas dos borgigin. Todos os súditos encontrados ao longo do caminho foram mortos para servi‑lo no além.

Seu filho mais moço, Tului, assume o governo provisório e o senhorio da maior parte do exército e das estepes mongóis, enquanto não é reunido o kurultai para a eleição do novo .

A Europa salva-se da Horda Dourada
Três anos depois, os noian elegem Ogodai como sucessor do pai. Seu irmão Jagatai governa a seu lado, Tului comanda o exército, e os descendentes de Gutsci recebem o ocidente, a Sibéria e o Turquestão, estabelecendo uma administração quase independente.

Dando prosseguimento aos planos de Gengis Khan, Ogodai conquista a China, fazendo cair a última província dos kin, cuja dinastia encerrou‑se em 1234.

Em Karakorum reúne‑se um novo kurultai que decide organizar um exército de meio milhão de homens e enviá‑los simultaneamente para os quatro pontos cardeais. Em 1236 Horda Dourada do filho de Gutsci, Batu, das estepes de Aral e dos Urais, segue para o ocidente, com o auxílio do sexagenário Subotai, que devastara a região anos antes. Conquistam a Hungria, dividem‑na em regiões administrativas, estabelecem chefes locais, mesclam‑se à população nativa. Cruzando o Danúbio, penetram na atual Áustria. Destroem todos os exércitos cristãos. Em 1242 morre Ogodai, abrindo perspectivas à sucessão, o que faz Batu retornar à Ásia e trazendo alívio e surpresa à Cristandade.

Os netos chineses de um imperador das estepes
O ideal nômade era impossível: as exigências administrativas obrigavam ao rompimento com a Iassa. Ogodai dividiu o império em regiões, delimitou as áreas de pastagem e o deslocamento de cada tribo e fixou o orçamento segundo uma décima em dinheiro e impostos em gado.

O apogeu do esplendor, conhecido por Marco Polo, coube a Kublai, neto de Gengis Khan, que reinou em Pequim sobre um império dividido em 34 províncias, dirigidas por doze ministros chineses. Logo em seguida veio a decadência, pois os mongóis, pouquíssimos diante de tamanho território e sem o terror que paralisava a população, eram incapazes de conter os levantes. Foram expulsos da China em 1368.

A atual República Popular da Mongólia, com um milhão e meio de quilômetros quadrados, é o que restou de todas essas conquistas. ainda se encontram resquícios da vida nômade e as tribos costumam reunir‑se para reverenciar o espírito daquele que um dia deu a seus ancestrais o encargo de conquistar o mundo, na derradeira investida da estepe contra os povos sedentários: Gengis Khan.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Roaring Twenties mais radicais que os Anos 60


Sufraguetes
Saia acima do tornozelo (pela primeira vez em dois milênios)
Nietzsche
Divórcio
Trabalho feminino
Voo intercontinental
Arranha-céus
Einstein
Swing
Novo Balé
Picasso
Hollywood
Máfia

Saiba mais sobre os anos 20 aqui.
Ouça o Proibidão da época aqui.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Gêngis Khan: Imperador Oceânico


A travessia do deserto de Gobi
Gengis Khan estabelecera acordos secretos com as tribos defensoras da Grande Muralha, da Mongólia Interior chinesa. Com habilidade diplomática, conquistou o noroeste da China em 1209, até então dominada pelos tangout, a título de zeloso vassalo do imperador kin. Contudo, obrigou‑os a se comprometerem a auxiliá‑lo a um futuro ataque contra a China. Com efeito, em 1211, sob a perspectiva de pilhagens colossais, Gengis Khan partiu à frente de 200.000 guerreiros pelo deserto de Gobi, rumo às riquezas dos kin.

Cada homem levava dois odres cheios de leite de égua fermentado e uma tenda individual. Alguns rebanhos seguiam o exército, para garantir alimento. Foram anos de guerras e saques, em que quatro exércitos chineses foram destruídos, os campos e as colheitas arrasados. As catapultas, lançadores de lanças inflamadas e bombardas apenas diminuíram a mobilidade das tropas chinesas frente aos hábeis cavaleiros das estepes. Nos ataques às cidades fortificadas, estes usavam de terror, pondo a população local diante de seus homens, como anteparo para as flechas dos defensores.

O imperador sitiado em Pequim acabou por se dobrar, entregando todo o tesouro imperial e uma filha como esposa a Gengis Khan. Antes de retornar às suas pastagens, os mongóis decapitaram todos os milhares de prisioneiros, que certamente não conseguiriam realizar a travessia do deserto de Gobi.

Mas a imediata mudança da capital imperial de Pequim para Pien foi interpretada como um rompimento do tratado de paz. Gengis Khan retornou com sua cavalaria à China, destruiu Pequim completamente no verão de 1215. Os poetas chineses da época cantavam: E “Nem um gorjeio de pássaros fora dos muros silenciosos. Os fossos estão repletos de sangue gelado e de cadáveres de barba endurecida. A corda de todos os arcos rompeu‑se, todas as flechas jazem caídas”. Permaneceu ainda um ano e partiu deixando 23.000 soldados para terminar definitivamente a conquista. A campanha também foi útil para que os generais de Gengis Khan aprendessem os meios técnicos de guerra chineses.

A longa travessia entre neves eternas
Gebe tomou em 1218 o reino nômade dos karakitai, pelo que Gengis Khan passou a ter por vizinho o poderoso conquistador Mohamed de Kharesm, cujos domínios se estendiam da fronteira hindu e do golfo Pérsico até o mar Negro e o mar Cáspio, da Arábia até o lago de Aral. Além de que o soberano persa também conquistara parte do reino karakitai, tanto ele como Gengis Khan repartiam as importantíssimas rotas de comércio com o Ocidente.

Quando os persas atacaram uma caravana diplomática e comercial, saqueando‑a e deixando os embaixadores mortos, Gengis enviou sua última mensagem: “Tu escolheste a guerra. Apenas o céu conhece o resultado da luta”. Reuniu 200.000 soldados, divididos em três grupos, dois da vanguarda liderados por seu filho Gutsci e o grande general Subotai, e o da retaguarda por ele mesmo e seu fiel Gebe.

Percorreram 2.000 quilômetros entre montanhas inacessíveis e desfiladeiros perigosíssimos, a mais de 3.000 metros de altitude, para atacar adversários mais numerosos e melhor equipados. Chegaram meio mortos de fome e cansaço e a vanguarda foi rechaçada pelo exército persa, que os esperava. Como a ameaça parecia afastada com a retirada do inimigo, passaram a comemorar a vitória, mas foram surpreendidos pelo outro lado pelo destacamento da retaguarda. Colocados entre dois fogos, os persas resistiram apenas para adiar o fim previsto. As guarnições da fronteira caíram uma a uma, Samarcanda foi incendiada com o emprego de catapultas e o foi perseguido peloscães de ferro” Subotai e Gebe até morrer doente e alquebrado numa ilha do mar Cáspio no inverno de 1220.

Gebe e Subotai receberam então a missão de “submeter ao domínio de Gengis Khan todos os países outrora dominados pelos hunos e pelos turcos”, partindo rumo ao Ocidente com 20.000 homens. Enquanto isso, o teve de enfrentar seu mais difícil adversário, o príncipe herdeiro Gelal ad‑Din Mangubertu, que, refugiado no Afeganistão, preparava uma “guerra santa” de resistência aos invasores.

Um chamado à oração custa a cabeça
Com a destruição de guarnições e o assassinato de governadores mongóis, Gengis Khan reconheceu que uma ação imediata poderia restabelecer seu domínio e ordenou o massacre total da população das cidades revoltosas. Disposto a atingir seus objetivos até o fim, determinava assim o preço da revolta: todo o país deve se tornar estepe, único fundamento seguro de dominação. Os mongóis vestidos de mulá (personalidade religiosa xiita, doutor da lei corânica) chamavam os fiéis à prece e os que acorriam eram decapitados. Os cronistas persas afirmam que apenas um décimo da população conseguiu sobreviver à onda de destruição que arrasou um importante centro de civilização medieval.

Gelal, porém, continuava a lutar com suas tropas fiéis, chegando a matar trinta mil mongóis. Mas foi finalmente cercado às margens do Indo e, atacado por três lados, resistiu o quanto pôde. Ao ver‑se perdido, saltou a cavalo de uma altura de oito metros e alcançou a outra margem do rio. Gengis Khan impediu sua perseguição imediata em louvor à sua coragem, dizendo a seus filhos: “vocês deveriam ter sucessores iguais e este homem”. No dia seguinte, uma parte do exército entrou na Índia em busca do fugitivo. Após o saque de algumas cidades, o calor intenso e as doenças fizeram‑nos regressar.

O saldo de quatro anos de campanha foram milhões de muçulmanos mortos e um império que se estendia da China ao golfo Pérsico, dos desertos siberianos às florestas indianas.

Paralelamente, de 1221 a 1223, a horda mongol liderada por Gebe e Subotai atravessou o continente asiático num percurso de 6.000 quilômetros, dominando os principados da Geórgia, atravessando o Cáucaso, atingindo as vastas estepes da Rússia meridional e derrotando os seus exércitos, saqueando os entrepostos genoveses na Criméia, levando seus cavalos até Volga.

Gengis então os chamou de volta, pois era preciso retornar às estepes, organizar os problemas do império, especialmente o da sucessão, e traçar os planos de futuras campanhas. Gebe e Subotai trouxeram enormes pilhagens dos povos vencidos e as notícias sobre os últimos descendentes dos hunos, “que vivem às margens de um grande rio chamado Danúbio”.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Maio de 1968 em oito flashes


1. Aluno é punido na França.


2. Garotos provocadores, influenciados por marxistas, fazem pichações como “Corra, camarada, o velho mundo está atrás de você!” ou “É proibido proibir!”


3. Quebra-quebra e confronto com a polícia.


4. Confluência de pessoas nas ruas e reclamações.


5. 2/3 do operariado entra em greve.


6. A França para.


7. Charles De Gaulle fecha o Congresso e convoca novas eleições.


8. Tudo acaba.


Por que raios teve tanta repercussão internacional?

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Temugin é aclamado “Gengis Khan”


Kurultai, a grande assembléia
Na primavera de 1206 todos os habitantes das tendas de feltro, desde os pastores aos noian (nobres) foram convocados para uma kurultai ou assembléia perto dos montes sagrados dos borgigin, em que se informariam os desígnios dos deuses para as tribos.

Os chefes engalanados assistiram ao sacrifício ritual de garanhões e éguas e ouviram os mais respeitados xamãs proclamar soberano supremo a Temugin. O príncipe dos xamãs lhe disse: “Se exerceres teu poder com justiça, o céu o estenderá sobre toda a terra. Se abusares dele, que até mesmo esta manta de feltro te seja tirada”. E levantando‑o no ar sobre o feltro, foi aclamado por todos os chefes como Gengis (o maior, o mais vigoroso) e rei dos hunos.

Tomando a palavra, Gengis Khan concedeu em reconhecimento o honroso título de mongóis a todas as tribos ali representadas e afirmou: “Este povo mongol, que encontrei duro, puro e claro como cristal, conduzirei à dominação do mundo”.

Efetivamente, a unidade subjacente aos títulos de “rei dos hunospara Temugin e de “mongóis” ao povo supunha que as antigas tribos passavam a representar simples associações familiares e que a nova nação mongol se voltariam contra as populações sedentárias.

Como no passado, a capital foi instalada em Karakorum, antiga capital do império turco. Os funcionários naimanos que tinham sido feito prisioneiros criariam o alfabeto mongol, baseado no uigur. Gengis Khan exerceu o poder supremo sobre 32 povos, por ele divididos entre “os do centro, os da mão direita e os da mão esquerda”, na mesma ordem em que disporia as tropas fornecidas por eles.

Novo exército e velhos costumes
Para que o exércitoespinha dorsal do império nascido das lutas contínuas e voltado para a conquista — fosse um instrumento capaz de conter as intermináveis rebeliões dinásticas e tribais, Gengis Khan reformulou‑o radicalmente. Os mongóis foram organizados, para a paz e para a guerra, em pelotões de 10.000 homens, os tuman, diretamente ligados ao comando supremo. A participação num tuman era hereditária e intransferível, mas em seu interior havia uma mudança constante de quadros, com administração bastante democrática: cada dez homens escolhiam um chefe de grupo, cada dez chefes um centurião, cada dez centuriões um chefe de mil, e os chefes de mil elegiam o líder do tuman, mas que precisava da confirmação de Gengis Khan.

Da sua rude legislação chegaram‑nos pequenos fragmentos através de fontes muçulmanas. Por exemplo, diz seu primeiro artigo: E “Aquele que não obedecer ao Iassa (a lei) perde a cabeça”. Ou: “A maior felicidade para um mongol é vencer o inimigo, roubar seus tesouros, matar seus servos, escapar no galope de seus cavalos bem nutridos, servir‑se do ventre de suas mulheres e filhas”.

O novo também procurou consolidar os princípios tradicionais da sociedade nômade sem alterá‑los minimamente. Seu império é um grupo de ulus (tribos), estas um conjunto de clãs e estes um grupo de famílias. O conselho do clã imperial detém o poder de escolher o supremo. À sua volta estão os antigos noian e os guerreiros. Estes preenchem os quadros de mando do exército, recebendo honrarias e propriedades proporcionais ao seu mando. Os chefes de mil recebem uma placa de ouro decorada com uma cabeça de leão, têm direito a guarda‑sol nos deslocamentos e a um trono ao conceder audiências, ainda que não disponham de muito tempo para administrar a justiça. Por outro lado, as caçadas eram consideradas prática militar e duravam dois meses.

domingo, 29 de novembro de 2009

São Nicolau, me dá 100 paus!


Quando chegam as Festas Natalinas o bolso geme. No dia 6 de dezembro, memória de São Nicolau (nosso Papai Noel), deverá o Bom Velhinho pôr as barbas de molho, pois preciso de grana. São Nicolau, me dá 100 paus!


Mas por que toda essa sanha consumista justo no Natal de Cristo, que pobre nasceu e viveu? Não vou falar disso aqui, pois o tema é mais velho que o meu avô e já postei um texto de Curzio Malaparte sobre o tema.


Apenas quero cutucar um mau hábito que arraigou em muitas famílias: viver o calendário do comércio, atuar ao ritmo do consumo.


O comércio costuma se empetecar para o Natal no início de novembro. Só que é apenas hoje que começa o Advento! Por outro lado, já vi árvores, luzes e guirlandas em um monte de casas e edifícios há três semanas. Provavelmente, tudo será retirado já no dia 26 de dezembro; afinal, ninguém aguenta ficar olhando para um pinheiro colorido durante dois meses.


Em minha casa seguimos um velho costume europeu: acender a Coroa do Advento em cada um dos quatro domingos que antecedem o Natal. A árvore só vem por volta do dia 18, festa de Nossa Senhora do Ó, e fica até a Epifania.


É óbvio que não há regras fixas sobre isso. Contudo, entre o calendário litúrgico e o comercial, prefiro o litúrgico. Assim como, entre o gordinho do Polo Norte e São Nicolau, prefiro o bispo asiático do século IV.


Deixe-me um presente de Natal: faça um comentário a esta postagem!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Tchekhov e a ficção da indiferença


Gostei de ler O Assassinato e Outras Histórias.


Anton Tchekhov (1860-1904) perdeu seu teor humorístico em sua última fase, entre 1894 e 1900. Nesse período, escreveu menos, porém produziu contos mais longos.


O ambiente de então, saturado de ideologias, cujos debates só faziam sentido em formas extremadas, fez do escritor um campeão dos credos políticos e religiosos.


Tchekhov escolhera a indiferença como método crítico. Por exemplo: a religião lhe era moralmente indiferente; não falava de Deus, mas só do que disseram dele.


Enquanto russo, sua técnica, típica de escritor livre, não era mero recurso literário. Seu estilo vem plasmado pela peculiar visão das coisas: corta o início e o fim dos relatos para o acaso interferir, o secundário tomar a frente e a história ficar suspensa.


Na coordenada urbana, retrata a classe média, o interior, os sentimentos e a profissão, evidenciando a escassez com seus finais reticentes.


Na coordenada rural, explora o darwinismo social, a ganância, a pobreza, criando finais sucessivos cujo excesso neutraliza a solução.


Já leu alguma obra de Tchekhov? O que achou?
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